03 julho 2015

POR QUE A MAJU INCOMODA TANTO?



Eu sempre penso que há poucas coisas nessa vida que nós realmente podemos escolher. A textura do nosso cabelo, o quanto vamos ficar altos, a cor da nossa pele e por aí vai. Mas sempre penso, também, que nenhuma dessas coisas, independentemente de serem escolhas minhas ou não, me desqualificam como pessoa. Ou te qualificam como melhor que eu por sermos “diferentes”. Sabe como é? Pois então.
Historicamente, vivemos em uma sociedade machista. Para os leigos, aquela em que, ainda que de forma “velada”, o ser masculino é, de todo, superior ao feminino. Em contrapartida, nossa maior regente, a Constituição, garante que perante a lei somos todos iguais. Mas olha que dado engraçado: apesar disso, e graças aos fundamentos da nossa sociedade, as estatísticas nos revelam que no Brasil, as mulheres ocupam menos de 5% dos cargos de maior importância, e são agredidas em média a cada 15 segundos no país. Obrigada, sociedade.

Historicamente, também vivemos em uma sociedade racista, sabe como é? Só no Brasil, escravizamos o negro por ininterruptos 300 anos e, suspeito, fazemos isso até hoje. Pare e se pergunte: quantos negros você lembra ocuparem cargos de “maior porte/importância”? Quantos são CEOs, apresentadores de TV, juristas, magistrados, médicos, presidentes? E quantos deles continuam ocupando a maior parcela dos caixas de supermercados, agentes de limpeza, atendentes de balcão e etc? Sim, são profissões tão dignas quanto, mas esse não é o ponto. Visualizou as “estatísticas”?

Dito isso, criemos uma situação hipotética: quando uma mulher, negra, ocupa o cargo de garota do tempo do principal telejornal brasileiro, em horário nobre, na maior emissora de televisão aberta do país, quanto de incômodo isso pode causar? Pela segunda vez num intervalo de poucos meses, a jornalista Maria Júlia Coutinho foi chamada de macaca, nojenta, vagabunda, band-aid de preto, fita isolante, e recebeu uma série de outras mensagens de ódio, racismo e desumanidade. De forma gratuita.

Seu pecado foi, única e exclusivamente, ocupar um lugar tradicionalmente branco, destinado às belas moças loiras, de cabelos longos e lisos e pele alva (pelo menos o quão alva dá pra ser nesse nosso Brasil ariano #sqn). Num país onde, segundo dados do DIEESE de 2011 (vide imagem abaixo), o hiato entre negros e não-negros com ensino superior incompleto e completo ainda é enorme, não é de se estranhar que tanta gente ainda se surpreenda com uma negra que não apenas é formada, como obtém tamanho destaque dentro do seu campo de trabalho.


Até aí, eu “entendo”. O que eu não entendo, e tampouco respeito ou tolero – e graças a deus muita gente compartilha do meu pensamento -, é que Maria Júlia seja ofendida, humilhada, agredida por desafiar as estatísticas duplamente: por ser mulher e por ser negra. Nada, nada que digamos a ela nesse momento vai aplacar a dor que uma agressão causa. Eu não sou negra, mas compartilho pelo menos de parte da dor dela: sou mulher, sou jornalista, vivo, como ela, em luta incansável pelos meus direitos e pelo meu lugar (que EU DEFINO!) na sociedade.

E, eu digo com certeza: eu não mereço ser agredida por isso. Por gente que estereotipa quem deve estar na TV. Por gente que discrimina pela cor da pele. Por gente que, com tamanha incompetência, agride o outro por ser, orgulhosamente, mais bem-sucedido. “Apesar” de ser negro, apesar de ser mulher. Sabe a causa de tudo isso, leitor? É medo. Pro racista, o medo de ver a representatividade que existe por trás de uma mulher negra na tela da TV aberta. O medo de que outras se espelhem nela e “tomem” o espaço das brancas. Pro machista, puramente machista, ofende ver uma mulher obtendo tanto destaque, tantas críticas positivas, recebendo tanta admiração pelo trabalho de qualidade que ela vem desenvolvendo. Pro machista e racista, é a “audácia” de Maju que ofende: como ela, mulher e negra, se atreve a ocupar um posto tão importante dentro da sua profissão? Como ela se atreve a desafiar a sociedade e chegar lá, enquanto deveria estar lavando, passando e cozinhando pro senhorzinho branco?

Não vou disponibilizar o link de algumas imagens que registram a agressão à Maju, pois seria idiota dar mais audiência a uma raça de ignorantes. Mas eu te convido, leitor, a constatar essa afirmação: se não todas, a grande maioria das agressões direcionadas à Maria Júlia veio de homens. De homens brancos.
Numa sociedade, repito, historicamente machista e racista, será que é coincidência? Será que é coincidência ainda hoje, 130 anos após a abolição da escravatura, ainda termos um índice de escolaridade tão destoante entre negros e não-negros no Brasil? E se não é, vai acabar quando?

Por isso, caro leitor, antes de achar que o que aconteceu com a Maria Júlia é besteira, ou só mais um caso isolado de racismo e machismo, leia, se informe, busque o contexto histórico, reflita e, a partir daí, difunda o seu conhecimento. Por que é assim que a gente combate ignorância, acendendo a luz do conhecimento e insistindo continuamente que não, não é coincidência, não é besteira e nem é tampouco “mais um caso”. É “o” caso, é meu, é seu, é de todos nós. Comprar essa briga vai proteger as futuras gerações de passarem por tudo isso de novo.

É o que vai permitir que eu, parda, ande com meu filho negro na rua sem ser questionada se ele é mesmo meu. Vai permitir que minha filha negra use seu cabelo natural e se sinta linda, sem ser agredida e reprimida por assim escolher. É o que vai permitir, com fé na humanidade, que as mulheres que virão depois de mim ocupem os mesmos cargos que os homens, ganhando não 30% menos que eles, mas um salário digno, igual, sem cortes discriminatórios de qualquer natureza.
Pense nisso. E pense mais duas vezes antes de arrotar asneira por aí. A internet serve pra muito mais coisa que vomitar ofensa no facebook, amigo. Faça bom uso da palavra, dentro e fora da rede. Ah, e força Maju. A gente tá contigo.

PS.: A pesquisa completa do DIEESE você confere nesse link: http://www.dieese.org.br/analiseped/2012/2012pednegrosescolaridade.pdf

Beijos, 
Equipe Preta Mesmo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua opinião é muito importante pra gente. Se joga <3

Posts Recentes

recentposts

Mais Vistas

randomposts

Contato

Nome

E-mail *

Mensagem *