25 novembro 2016

COLORISMO: PRECISAMOS FALAR SOBRE ISSO


Colorismo é um tema que ainda causa dúvida e no Brasil ainda não temos estudos aprofundados sobre esse conceito, mas existem muitos textos que trazem importantes reflexões e têm apontado sobre a necessidade de estudarmos e conhecermos o tema, dada a hierarquização da sociedade racista brasileira em que estamos inseridos e a vivência da população negra. O colorismo ou pigmentocracia são termos usados para pensar as diferentes experiências de racismo vivenciadas a partir do tom de pele de um indivíduo negro. O colorismo não é sobre brancos que querem ser negros, não é ser negro quando convém. O colorismo é sobre como uma pessoa negra é vista e tratada socialmente a partir da tonalidade de sua pele. Ao longo do tempo que tenho lido, acompanhado discussões e ouvido algumas falácias como:

 “Somos uma país miscigenado”;  “Todos somos negros”;  “Tenho parentes negros”;
                   "Viemos todos da África”.

É verdade que somos fruto da miscigenação. Desde meados do século XIX o Brasil é conhecido como o país da miscigenação e foi vista por muitos pensadores da época como fator de atraso para a civilização e desenvolvimento do país e inferioridade do povo – qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera coincidência. Gilberto Freyre foi o primeiro pensador a conceber a mestiçagem de forma positiva pra a formação da identidade nacional, porém seu pensamento não foi capaz de entender a manutenção do racismo nas relações entre indígenas, africanos e europeus; já que afirmava que existia uma relação pacífica entre as etnias – penso que ser escravizados, torturados e ter suas terras roubadas nos diga o contrário.
Desde então, a mestiçagem e democracia racial são dois conceitos utilizados pela sociedade racista brasileira que repete esse mito a fim de relativizar e esconder o racismo que estrutura nossa sociedade. Não vivemos numa paz racial, pelo contrário, a negação do racismo só faz com que o Brasil seja um terreno fértil para perpetuação dele e protege os privilégios dos brancos. Repetir uma mentira várias vezes não torna ela verdade, mas infelizmente confunde e atrapalha a percepção do negro sobre ele, sua identificação e ligação com a história afro-brasileira. Se por um lado temos a afirmação que somos todos mestiços, iguais e que não existe racismo, por outro temos as experiências de exclusão, inferiorização e mazelas das consequências da escravidão na vida do negro brasileiro.

O embranquecimento da população era uma forma de negar a negritude, que segundo os brancos brasileiros era negativa e quanto mais próximos ao ideal branco corporal, mais se agregavam pontos positivos, que amenizavam o fato de trazer no corpo alguma ligação com seus ancestrais africanos. Quando falamos em colorismo, devemos pensar em duas questões:
I) O negro que tem a pele clara e tem traços que se aproximam da branquitude e por isso pode ser mais aceito
II) O negro com a pele mais escura que quanto mais carrega traços negros, mais excluído é dos espaços.

Dependendo da tonalidade de cor que o negro tenha, ele pode ter privilégios sobre aqueles que têm a cor mais retinta. O negro de pele mais clara pode até não ser identificado como branco, mas sua passabilidade dentro desse mundo é maior que a de um negro com tez escura.
É verdade que o negro por muitos anos foi alienado dele mesmo, pois a melhor forma de fazer com alguém não lute pelos seus direitos, é fazendo que ele não se reconheça, não saiba quem ele é. Então, por muito tempo fomos chamados de morenos, mestiços e pardos, menos negros e isso foi muito mais absorvido por quem tinha traços que remetiam à amenização da negritude – pele, cabelo, traços do rosto - , mas essa jamais foi opção pra quem tinha a pele retinta, até dentro da categorização de moreno, não cabia o “moreno escuro”, era preto e dito isso com muito desprezo.

Aos negros de pele mais clara cabia a morenisse, que foi obviamente um ponto negativo pra nossa história por que fez com que a busca pelo ideal branco fosse um motivador do sentimento de superioridade de alguns negros sobre outros baseados no colorismo. Quando esse negro de pele mais clara se assume enquanto negro e entende esse processo, não pode deixar de lado a outra questão imposta pelo colorismo, que são os privilégios que se pode gozar com a rejeição à pele mais escura dentro desse sistema. Mesmo que se tenham privilégios, não quer dizer que o negro de pele mais clara não sofra racismo, mas que o racismo perpassa diferentes situações dependendo da cor. Entender o colorismo e que a negritude agrega diversas características é fundamental, e não nos serve dizer quem é mais ou menos negro, mas é preciso reconhecer que somos diferentes e a sociedade racista ainda vai usufruir disso.
Não somos inimigos uns dos outros, pelo contrário: pensar essas questões deve nos aproximar na luta pela nossa sobrevivência emocional, psíquica e física que é ameaçada pelo racismo.

Rouseanny Luiza

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