07 maio 2017

TAÍS ARAÚJO E LÁZARO RAMOS FALAM SOBRE COMBATE AO RACISMO, REPRESENTATIVIDADE E A PEÇA 'O TOPO DA MONTANHA'







                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             Risos, apreensão, choro e sentimento de pertencimento. O espetáculo “O Topo da Montanha” veio pela primeira vez a Aracaju e com ele Taís Araújo e Lázaro Ramos, dois gigantes da TV brasileira e ícones da luta pelo fim do racismo. A peça é instigante, forte e um soco no estômago da sociedade dos nossos dias. O texto de Katori Hall fala sobre a última noite de vida de Martin Luther King  Junior, pastor evangélico dos Estados Unidos que combateu a segregação racial até o ano de 1968, quando foi assassinado na sacada de um hotel. A obra teve duas apresentações em Aracaju, nos dias 06 e 07 de maio, no Teatro Tobias Barreto e foi trazida por Vilella Produções.
Nesse contexto, conheci Taís e Lázaro. Um casal bonito, bem entrosado e que têm posicionamentos muito consolidados sobre os rumos que o Brasil está tomando tanto enquanto nação política, como também na defesa dos direitos das pessoas. Tive acesso aos bastidores da apresentação e conversei com Taís e Lázaro separadamente. O resultado do nosso papo é esse aqui:

PRETA MESMO: Como vocês sentiram a recepção do espetáculo em Aracaju?
TAÍS ARAUJO: É engraçado, essa peça comunica tão bem... Ela tem acontecido no Brasil inteiro e salvo algumas diferenças muito sutis de região ela é muito bem recebida, e aqui em Aracaju não foi diferente. As pessoas respondem muito, o tempo inteiro as provocações que a gente coloca na peça, todas as reflexões... Ela é uma montanha russa de emoções mesmo, vai da comédia pro drama, pro momento reflexivo e tal. Aracaju foi sensacional!
LÁZARO RAMOS: Foi a melhor possível. Esse espetáculo tem uma coisa que é bacana que a gente percebe a reação do público durante a peça. Quando a piada funciona, quando o momento de emoção funciona, a mensagem passou, essa mensagem que a gente vem trazendo aí da luta contra o preconceito, do afeto, da coragem, do respeito. Foi uma boa receptividade.
PM: Em Sergipe, 79% da população é negra. Somos o segundo estado com mais negros no Brasil, ficando apenas atrás da Bahia. Somos também um dos estados que mais mata a população negra. Vocês acham que o preconceito social é mais forte quando há o recorte de raça?
TA: Eu acredito que o racial esteja à frente do social, sempre. E quando você conjuga os dois a situação fica mais delicada ainda. É realmente trágico, é o que você falou e é o que a peça fala, o número de mortes é alarmante. O que tá acontecendo aqui é um genocídio do povo negro, e isso tá acontecendo no Brasil inteiro e é muito pouco falado. É divulgado por nós, negros, como se fosse um problema exclusivamente nosso, mas é um problema da sociedade como um todo. Eu sinto muita falta da sociedade estar junto com a gente numa questão que é tão séria e tão urgente. E sem contar que falta muita vontade política, falta um monte de coisa que a gente sabe que falta, pelo abandono do nosso país às moscas.
LR: Eu acho que tem todo tipo de preconceito. No Brasil tem o racial, tem o de classe, tem o de gênero, tem os que se misturam... Às vezes quando a gente fica nessa análise, querendo saber qual é o maior e qual é o menor a gente foge do foco real que é resolver o preconceito. Esse percentual, se é racial, pra mim é um cálculo que é tão subjetivo que as vezes me parece que é uma nuvem de fumaça pra você tratar do real problema. O fato é: somos preconceituosos, precisamos deixar de ser, precisamos acolher a diversidade, precisamos ter empatia pelas questões dos outros e inclusive não é só uma questão de quem é negro, é uma questão do país, porque o país precisa potencializar talento e o país precisa se assumir como ele é, que é um país diverso, que é a sua maior qualidade e que a gente não aceita isso. E se preocupar com os grandes sintomas desse preconceito. O assassinato de jovens negros, inclusive, é algo que a gente precisa persistir e lutar todos os dias pra reduzir, acabar. Não sei se o país está levando a sério o tamanho que esse problema tem. E esse espetáculo também fala sobre isso, quando a gente tem a oportunidade de juntar essa quantidade de gente no teatro, pra fazer com as pessoas se sintam acolhidas no tema, e se sintam parte do problema e da solução também, eu acho que essa é uma das armas que a gente tem. O negócio é combater.


PM: Como ator, já sentiu que o seu profissionalismo foi questionado por conta sua cor?
LR: Já, em alguns vários momentos ao longo da vida, da trajetória, várias vezes e em várias situações. Procurei não deixar isso me abater. Acho que pra mim talvez tenha sido possível por causa da base familiar que eu tive. Tem outras pessoas que eu conheço e que não tem uma base familiar ou recebeu um aconselhamento, ou teve uma força individual quase heroica pra se livrar disso, as pessoas às vezes atrasam o seu caminho e não conseguem combater isso porque convivem em um ambiente onde você se sente pra baixo o todo tempo e isso é muito triste. Eu passei por isso várias vezes e hoje em dia vejo o preconceito, vejo o problema, vejo alguém me subjugando e eu penso assim: ‘Eu sei que você tá aí, mas eu não vou dar atenção a você, eu vou continuar caminhando e vou seguir’. Fico sempre na torcida para que as pessoas tenham essa força.
PM: Quais são as pessoas que te inspiram tanto na beleza quanto na militância?
TA: Eu tenho sido inspirada por tanta gente o tempo inteiro... quando uma menina na rua vem falar comigo e vem me falar o que você falou (sobre ela ser um exemplo para nós, meninas negras), eu falo que ela acredite de verdade que é uma via de mão dupla. Quando eu vejo que o meu trabalho fortalece alguém e essa pessoa vem me falar isso, automaticamente ela me fortalece também, sabe? (risos). Existem nomes específicos, eu posso falar da Djamila Ribeiro, eu posso dar nomes de outras pessoas que estão ligadas à academia, mas não são só elas. As mulheres que estão na rua e que vem falar comigo, as mulheres que dizem que eu as fortaleço, elas também me fortalecem automaticamente. Eu adoro quando vocês vem falar comigo, no início eu nem sabia como reagir, eu ficava meio tímida, tinha vontade de chorar, fazia a linha maluca e jogava pra cima e falava ‘Ah, que bom, brigada, hahaha’, fazia uma piada, porque isso me emociona muito. Hoje em dia não, hoje eu faço questão de falar ‘Você também me inspira’ e eu acho que uma potencializa a outra mesmo, sabe? Eu acredito que quando eu falo que ela me inspira ela está potencializada e eu também estou potencializada.

- Muito obrigada, viu? Obrigada, de verdade. (Iza)
- Nada, magina. (Taís)
Depois disso que fui parar no hospital e fim, hahaha. Espero que vocês tenham gostado do nosso bate-papo com esses lindos. A Taís é rainha mesmo e o Lázaro um bon vivant. Eles são lindos juntos, mas também e principalmente separados, com opiniões que convergem, mas muito individuais. Vida longa ao casal mais representativo que você respeita.


Um beijo,

Bella.

Fotos: Ascom/O Topo da Montanha

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